Muitos
observadores estão atribuindo à alta da inflação os conflitos que se
espalharam em algumas capitais do País, e especialmente em São Paulo, em
função das passeatas contra o aumento das tarifas de ônibus. O reajuste
de R$ 0,20, de R$ 3 para R$ 3,20, corresponde a um avanço de 6,7%, o
que está abaixo da inflação, considerando-se que alta foi adiada (e,
portanto, refere-se a mais de um ano) por injunção da equipe econômica,
preocupada em “distribuir” melhor os impactos inflacionários ao longo do
ano.
Certamente,
o governo deve estar preocupado com os efeitos da inflação no humor da
população, que vai às urnas no ano que vem para reeleger ou não a
presidente Dilma Rousseff. A alta da passagem de ônibus é um exemplo de
como a inflação afeta negativamente a renda real, mesmo quando o
reajuste nem chega a repor totalmente a inflação do período. Para o
público de classe média alta, parece irrisório um aumento de R$ 0,20.
Mas para pessoas na base da pirâmide, o somatório de pequenos aumentos
nos gastos cotidianos pode, no final do mês, fazer uma diferença não
desprezível.
É
evidente, também, que há muito mais nos protestos organizados pelo
Movimento Passe Livre (MPL) do que o simples reajuste da inflação
passada na tarifa. De um lado, há a ambição política dos seus jovens
líderes, cuja capacidade de concatenar argumentos num debate sério sobre
a mobilidade urbana ainda é muito limitada, mas que acertaram
taticamente (em relação aos seus próprios interesses) ao criar um evento
midiático que mobilizou o país.
E
existe também nas manifestações um sinal poderoso de uma contradição
básica no bem sucedido modelo socioeconômico que fez emergir a classe C,
a nova classe média popular, a partir do governo do presidente Lula. A
bonança das commodities permitiu ao governo brasileiro injetar renda,
crédito e consumo na veia da nova classe média, o que levou aos
altíssimos índices de popularidade experimentados tanto por Lula quanto
por sua sucessora, Dilma Rousseff.
Porém,
como já vêm notando alguns economistas e cientistas sociais, a melhora
do consumo pessoal não foi acompanhada de um avanço da mesma magnitude
nas condições gerais de vida das classes populares no Brasil. A
precariedade do transporte urbano, que também está por trás dos
protestos (além do preço), é um dos muitos aspectos desse fenômeno.
A
infraestrutura urbana ainda é precária, com transportes deficientes,
moradias distantes do local de trabalho e insalubres, falta de
saneamento e coleta de lixo, e serviços básicos como telefonia e energia
muito caros (para os que pagam). Muitas famílias pobres são vulneráveis
à degradação social, vivendo em meio a criminosos, e em condições
propícias à violência, ao aliciamento de jovens pelo tráfico, à
desagregação familiar e à gravidez precoce. A educação e a saúde
públicas, por outro lado, apesar dos esforços que vêm sendo feitos pelo
governo, ainda deixam muito a desejar.
Aquele
contraste vem à tona com mais força em momentos, como agora, em que os
avanços no consumo já não são suficientemente fortes para mitigar as
insatisfações com as condições gerais de vida.
O grande problema, porém,
é que foi muito mais fácil injetar consumo nas classes populares quando
a economia teve o impulso das commodities do que trabalhar em todas as
inúmeras frentes da melhoria do padrão geral de vida da base da
pirâmide. Para esta segunda tarefa, é imprescindível ter um Estado
eficiente, o que a presidente Dilma está percebendo que é um desafio
muito maior do que o possível de ser vencido apenas com uma boa gestora
no topo da cadeia de comando.
Além
disso, a melhora das condições gerais de vida é necessariamente um
processo gradual, enquanto a interrupção do aumento do consumo – um
risco concreto diante do cenário internacional mais difícil – pode ser
muito abrupta.
A
boa lição que o governo pode tirar das ruas de São Paulo nos últimos
dias é que a inflação é um fator de instabilidade social, e de que é
imprescindível avançar em reformas mais profundas e ousadas do Estado
brasileiro. É sabido, por exemplo, que este se transformou numa imensa
máquina de transferência de dinheiro entre distintos grupos da
população, mas com capacidade exígua de investimento em infraestrutura,
mobilidade urbana, saneamento, etc. Da mesma forma, o governo deveria
jogar na lata de lixo todos os preconceitos contra o capital privado, e
engajá-lo da forma mais vigorosa possível nas áreas cabíveis, como o
investimento em infraestrutura.
Por
outro lado, há o risco de que o princípio de insatisfação popular,
manifestado em São Paulo e outras grandes cidades, empurre o governo na
direção do populismo, como congelar tarifas, subsidiar de forma
fiscalmente irresponsável serviços básicos consumidos pela população
mais pobre ou atacar a inflação de forma heterodoxa – tentando controlar
preços ou jogando a culpa em empresários. Este é um filme que já foi
visto muitas vezes na América Latina, em que a insatisfação popular
frequentemente empurra os governos para soluções imediatistas e
insustentáveis.
A
reação mais lúcida da presidente Dilma diante deste aumento, ainda
modesto, da tensão social é o de continuar e aprofundar o aparente
resgate – iniciado há pouco tempo – da ortodoxia moderada que pautou a
política econômica brasileira desde o final da década de 90, e que foi
parcialmente abandonada nos últimos anos. E pensar seriamente em retomar
a agenda politicamente difícil, mas imprescindível, das reformas
estruturais.
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