Manifestantes Black Bloc fazem um exame de consciência e reclamam que sua conduta tem rendido fracassos e isolamento
A autocrítica dos Black Blocs. Manifestantes
que já foram vistos com
simpatia pela população
agora precisam lidar com reviravolta na
aceitação
(Foto: Mídia Ninja)
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Os manifestantes adeptos da chamada estratégia Black Bloc estão no
meio de uma encruzilhada existencial. Nem a direita e nem a esquerda os
vêem com simpatia. A origem do movimento é antiglobalização. Apareceram
na Alemanha, na década de 80. Tinham um cunho anarquista. Sem liderança
específica, se dizem uma organização horizontal.
Nos protestos, eles serviram, de certo modo, como escudo para o
Movimento Passe Livre durante os enfrentamentos com a PM. Pouco depois
começaram a aparecer os problemas. As pessoas que tinham certa
consciência da tática BB (atacar símbolos do capital, como bancos ou
filiais do McDonald’s), se viram acompanhadas de jovens apolíticos,
violentos e a fim de depredar qualquer coisa, protegidos pelo anonimato
da multidão. Como diferenciar uns dos outros?
Recentemente, a filósofa Marilena Chauí declarou que os black blocs tinham inspiração fascista. “Não é anarquismo”, disse ela. “Não usam violência revolucionária”.
Eles também tiveram de lidar com uma virada na opinião pública. No
Rio de Janeiro, se eles eram vistos com simpatia no início, agora os
moradores dos edifícios lhes atiram garfos e colheres.
A situação chegou a tal ponto que os BB cariocas fizeram um exame de
consciência e publicaram uma autocrítica em sua página no Facebook. “A
destruição do patrimônio público e privado à “la bangu”, tem sido
frenquente e muitas vezes de forma injustificável! Banca de jornal
atacada? Por quê? Pra quê?”, diz o texto. “Estamos isolados, ao ponto de
tacarem talheres dos prédios”.
Veja a seguir o “comunicado oficial” do Black Bloc RJ:
Nas últimas semanas temos notado um aumento na rejeição da ação
Black Bloc por parte da população em geral e até de alguns outros grupos
que também possuem reivindicações que nós consideramos sérias. Alguns
falarão: “E daí?” “Bando de Coxinhas” e etc… Será? Sabemos que boa parte
dessa rejeição é devido à mídia, que é declaradamente contra o
movimento, mas também é verdade que pseudo-ativistas que dizem usar a
tática Black Bloc tem contribuído MUITO para esta má fama.
Muitos destes
para nós, não se diferenciam dos numerosos coxinhas que encheram a
Presidente Vargas no famosos dia 20, pelo simples fato de não saberem o
porquê de estarem nas ruas, “Querem se divertir” ou “Querem brigar com a
PM” como ouvi outro dia. E desde quando esse foi o objetivo? A rejeição
do povo não é boa, porque nós somos o povo e deveríamos representá-los.
A destruição do patrimônio público e privado à “la bangu”, tem
sido frenquente e muitas vezes de forma injustificável! Banca de jornal
atacada? Por quê? Pra quê? É compreensível quando arrancamos placas de
trânsito e queimamos lixeiras para fazer barricadas contra o avanço da
polícia porque nós sabemos o que eles fazem, mas o que temos visto é um
descontrole, um corre-corre, perdoem-nos o termo, imbecil, que só faz
dispersar o grupo tornando a palavra BLOCO, uma piada!
E muitas vezes
desse corre-corre temos como resultado carros danificados, lixo na rua, e
patrimônio privado e público destruído sem justificativa alguma. E as
pessoas que fazem isso ainda não perceberam que elas só estão
facilitando o trabalho da oposição seja ela mídia, governo, polícia,
etc… e atrapalhando outras pessoas assim como a gente ou você que está
lendo esse texto agora, que trabalha e luta para tentar ser feliz. E os
verdadeiros marginais continuam rindo em paz. É impressionante termos
que tocar nesse assunto novamente, mesmo depois de produzirmos um vídeo
que teve mais de 500 mil acessos só na primeira semana.
A cena dos “meninos” tirando fotos no Largo do Machado após
quebrarem vidros de automóveis, derrubar banheiros químicos e destruir
placas de rua foi patética. Se alguém conseguir nos apontar algum
resultado positivo nisso, damos um prêmio!! E sinceramente, para nós não
há a mínima diferença entre eles e os coxinhas que tiraram fotos com a
cara pintada para colocar no Facebook no início das manifestações.
Sabemos que isso foi tudo, menos uma ação BB, e sabemos que não foi ação
de manifestantes que sabem a luta que é manter isso aqui de pé, mas
como sempre, caiu na conta do Black Bloc, e mais uma vez, enfraqueceu o
movimento, ao ponto de estarmos isolados. Quem está nas ruas e tem o
mínimo de bom senso, sabe sobre o que estamos falando.
O ponto precípuo da tática Black Bloc é dar resultados, antes de
qualquer filosofada anárquica dos dissidentes de plantão. Se o que tem
sido adotado até então não tem rendido mais frutos e sim fracassos, é
hora de rever tal conduta, não?
Para que o movimento fique mais forte, pessoas que não concordam
com as ações BB, mas que gostariam de protestar, devem ter seu espaço,
sim. Os coxinhas devem ter seu espaço! Assim como os demais grupos.
Devemos lembrar antes de mais nada, que NÃO SOMOS DONOS DAS
MANIFESTAÇÕES ALHEIAS e públicas, portando, não somos nós que devemos
conduzi-las, nem devemos ser o motivo para que estas terminem antes que
seus objetivos principais sejam concluídos, ainda mais por causa de
adolescentes que ainda não conseguem controlar seus hormônios.
Segundo, servimos de proteção aos manifestantes contra a ação
repressiva da polícia, mas se o povo não concorda com nossa atuação não
temos motivo de agir junto delas, nem razão para estarmos ali e por isso
reafirmo que estamos isolados, ao ponto de tacarem talhares dos
prédios.
Quando nós fazemos nossas convocações, aí sim, devemos tomar as
rédeas. O aumento do diálogo nas convocações é também fundamental. Essa
notificação não é uma cartilha de como agir ou uma tentativa de impor
coisa alguma. Simplesmente, é a visão de quem está nas ruas sempre dando
a cara à tapa e tem visto mais fiascos do que vitórias ultimamente com o
crescimento do grupo.
E acreditem, isso cansa! Por isso ressaltamos, se
metade do grupo tiver essa noção, a AUTO GESTÃO coletiva aparecerá
espontaneamente e ela tem que aparecer. As ações estranhas à tática
devem ser contidas pelo grupo, coloquem isso nas cabeças de vocês, se
não o movimento apodrecerá de dentro para fora. E todos os fatores
externos que querem nos derrubar sabem disso e estão rindo. A grande
maioria cai que nem um patinho nas armadilhas feitas pelos nossos
verdadeiros inimigos e simplesmente não conseguem ver isso.
Devemos rever a tática Black Bloc urgentemente e para isso, na
próxima convocação, antes de sair de casa, pense nisso tudo que você
acabou de ler aqui, para que tenhamos um diálogo produtivo, assim como
uma ação produtiva. Pessoas que são contra a mudança das ações atuais,
que concordam com as atitudes imaturas dos últimos protestos, favor não
comparecer. Daqui em diante, só iremos comparecer nas nossas próprias
convocações e quando formos convidados e/ou apoiados pelo grupo
organizador. Portanto, coxinhas sintam-se à vontade para marcar o
protesto que quiserem. Estamos mudando para tornar o Black Bloc RJ maior
e mais forte, além de fugir desse caminho que temos seguido, o de um
grupo de maratonistas sem ideal e sem união!
Para finalizar, ressaltamos a importância do diálogo para que
haja organização e união entre os Black Bloc, portanto, dialoguem, dêem
sugestão, critiquem o que houver de errado, porque acreditamos em uma
horizontalidade – mesmo que teoricamente não sejamos um grupo – e que
todos têm o direito – principalmente como cidadãos – de se expressarem e
por fim e de tamanha importância, acreditamos piamente em uma grande
melhora/evolução proveniente da consciência de cada um. Reflitam!
Kiko Nogueira, Diário do Centro do Mundo
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