Gerência da CBN foi informada sobre assédio mas não tomou nenhuma atitude, o que causou uma paralisação dos jornalistas; três se demitiram em protesto. Na carta abaixo, a estudante relata o que enfrentou
A estagiária de jornalismo da Rádio CBN Curitiba, Mariana Ceccon, registrou boletim de ocorrência contra o jornalista Airton Codeiro.
O registro foi realizado na Delegacia da Mulher (B.O nº 2013/816957) e
deve iniciar um processo de investigação. Ela também disponibiliza um
relato sobre os acontecimentos (ao final).
Cordeiro é acusado por casos de assédio sexual no ambiente de
trabalho. Em uma carta a estudante relata o que enfrentou. O caso já
havia vazado pelas redes sociais no começo deste mês. A gerência da
emissora havia sido informada, mas não tomou atitude, o que causou uma
paralisação dos jornalistas da rádio no dia 5 deste mês. Três deles se
demitiram em protesto: José Wille, diretor de jornalismo; Marcos Tosi,
chefe de reportagem e Álvaro Borba, âncora.
Os jornalistas que se demitiram haviam investigado o caso, ouvindo
cinco vítimas, entre estagiárias, telefonistas e secretárias. Os
depoimentos foram registrados, na época, e encaminhados à direção da
empresa. O Sindijor acompanha as investigações e encaminhará o relato ao
Conselho de Ética da entidade para análise.
Confira a íntegra da carta publicada pela estudante:
“Em vista da enorme pressão a que venho sendo submetida nos
últimos meses creio que não é mais possível ficar quieta sobre este
assunto. Primeiro eu gostaria de deixar bem claro que em hipótese alguma
eu gostaria que este caso viesse a público. Primeiro pela imensa
humilhação, segundo por vergonha em olhar para as pessoas e por último
pela inocente crença de que assuntos corporativos podem ser resolvidos
dentro da empresa. Acontece que trabalhando em uma rádio nada do que
acontece pode se manter por muito tempo em silêncio. Agora vejo meu
direito de “ficar calada” ser completamente anulado quando pessoas me
mandam mensagens perguntando se a tal estagiária sou eu, quando meus
colegas me olham estranho, além de ler, ouvir, centenas de versões para
uma história que sei que só eu posso dar um basta.
Em setembro completarei 6 meses de estágio na CBN Curitiba. Como
muitos sabem eu adoro trabalhar lá. Meus colegas sempre me trataram bem,
nunca como a “estagiária”, me passaram conhecimento, respeitaram-me
como profissional desde o início. Tanto que eu tive a oportunidade de
ajudar a produzir o programa, editar e nos últimos meses tive o
privilégio de ajudar na construção do jornal de dentro do estúdio. Foi
lá que eu pude conhecer melhor como funciona a programação e conheci
pessoas que eu admiro muito.
Também no estúdio pude trabalhar com o comentarista Airton
Cordeiro, uma pessoa que sempre respeitei pela história na imprensa
paranaense. Nos primeiros dias de estúdio tratei o Airton como trato um
tio avó. Ele me pedia para atender seu celular durante o programa e para
ajudar com coisas no computador como, por exemplo, anexar e imprimir
arquivos. Até então ele nunca havia me faltado com respeito.
No fim de junho começaram as baixarias. Dentro do estúdio,
durante os intervalos, o Airton começou a fazer piadas de péssimo gosto
sobre o Caso Tayná, sobre política, sempre usando termos de baixo calão.
“Quer dizer que ninguém quis comer a buceta dessa tal de Tayná?”
Ninguém respondia, às vezes forçavam um sorriso amarelo ou como no meu
caso, levava na “esportiva” porque afinal eu sou a estagiária e aquele é
o Airton Cordeiro! A corda sempre arrebenta para o lado mais fraco e
não seria eu que criaria caso.
No começo de julho um deficiente visual telefonou para rádio
fazendo perguntas sobre como é o estúdio, etc. Depois de desligar o
telefone relatei a ligação para todos e o Airton perguntou em alto e bom
som: “Por que você não disse para ele vir aqui pegar na sua buceta e
ver como é molhadinha?” Naquele momento eu fiquei chocada, como todos.
Eu respirei fundo 1,2,3 vezes, mas decidi não falar nada a não ser um
“vou falar para pegar no seu nariz Airton!” Brincadeiras… Brincadeiras
de um babão.
Um ou dois dias depois Airton estava se despedindo de todos. Ia
para Disney com a família. Naquele dia ele estava fazendo piadas
horríveis com nome de entrevistadas, falando baixarias como nunca.
Durante o programa ele se aproximou da minha mesa, como quem quer olhar
alguma coisa no monitor do computador. Abaixou-se, tirou os cabelos do
meu ombro e disse: “Eu estou morrendo de tesão em você e ainda vou te
montar, você vai ver”.
Estou relatando exatamente as palavras que ele me
disse não porque eu queira ou esteja confortável para falar sobre isto,
mas sim porque não aguento mais ouvir coisas do tipo: “ahh o velho tá
no fim da vida, foi lá fez um galanteio e todo mundo tá fazendo esse
escândalo”, “Ah o cara passou uma cantada e já levam para o lado do
assédio”. E para deixar bem claro de uma vez por todas que o Airton não
me fez nenhum elogio. Ele me tratou como um animal.
Ele falou isso e eu não fiz nada. Não respondi nada. Por muito
tempo eu fiquei me sentindo um lixo por causa disso. Quando tomei
coragem de contar, todo mundo me dizia: “Nossa se fosse comigo eu tinha
enfiado a mão na cara… Nossa e você não falou nada?”. Não, eu não falei
nada. Eu sempre imaginei que se algo desse tipo acontecesse comigo eu
enfiaria a mão na cara do sujeito. Mas não enfiei.
Fui só vomitar. Não
posso descrever ao certo o sentimento. Você se sente tão humilhado, tão
lixo humano, que não arranja força alguma para responder. Você tem
vontade de se esconder e se sente suja. Não quer falar pra ninguém. E no
segundo seguinte ele falou que estava indo viajar com a esposa, netos,
filhos para a Disney comemorar os 50 anos de casado. Como alguém pode
ser tão dissimulado?
Naquela sexta eu fui embora com a sensação física de que ia
vomitar a qualquer minuto. Não queria ver meu namorado, nem meus pais.
Decidi que apesar de amar trabalhar na rádio eu não ia mais voltar pra
lá. Não queria mais ver aquela pessoa.
Na segunda-feira, logo que cheguei à rádio, um dos meus colegas
me chamou para tomar água. Eu não sabia, mas as “piadas” do Airton
tinham vazado. Foi durante esta conversa que eu descobri que o Airton
fez isso comigo, mas fez coisas muito piores com tantas outras
funcionárias. Se eu não desse um basta ele só iria mais longe como já
havia feito antes. Tomei coragem e contei para este mesmo colega que o
Airton já havia me assediado e que não sabia o que fazer.
Com medo de a situação piorar e mais enojada ainda achei melhor
conversar com o Álvaro Borba também. Relatei as palavras exatas que o
Airton tinha me dito na sexta-feira e que eu não trabalharia mais lá. O
caso foi passado para os superiores que pouco a pouco foram sabendo de
tudo que aconteceu comigo e com as outras mulheres.
Recebi total apoio dos meus colegas diretos. Com o passar dos
dias, o Airton bem longe de férias, fui me acalmando e aceitando a
situação. O Wille me procurou, pediu desculpas em nome da CBN e garantiu
que ia levar o caso diretamente para o alto escalão. Isto porque o
diretor-geral da rádio é amigo pessoal do Airton e o maior medo era que o
caso fosse abafado ou contornado sem as devidas providências.
Neste
meio tempo o Wille recebeu relatos de outras funcionárias e
ex-funcionárias da rádio ficando cada vez mais irritado. Inclusive casos
que passavam do plano verbal. Passadas de mão, intimidações, ofertas de
dinheiro para levar funcionárias a motéis. Todas em mulheres que ele
provavelmente considera estarem em posições inferiores dentro da empresa
e vulneráveis.
Eu depositei todas as minhas esperanças de que o caso seria
resolvido ali. Sem exposição, sem mais estresse. Até o dia em que a
história vazou para fora. Em uma manhã eu vi a internet explodir em
cobranças, piadas e vexames. Meu nome não estava ali, mas todo dia,
desde o dia 18 de julho eu sofro um novo tipo de assédio: assédio moral.
O mundo realmente é feito de um nojento machismo.
Não vou ficar aqui pregando ideologias feministas, mas depois de
toda a situação que eu havia passado, abrir o Twitter e ver coisas do
tipo “na capa da playboy de julho, a estagiária que revelou Airton
Cordeiro revela tudo pra você”, “Airton Cordeiro comendo muito as
estagiárias da CBN Curitiba”, “Imagine as quengas que trabalham na
rádio”. Isso foi pior do que o próprio Airton. Todo mundo que me conhece
o mínimo sabe o quanto eu luto e me esforço pra fazer minha carreira
eticamente.
E isso é a pior coisa que pode acontecer com alguém que
tenha esses princípios. É ser exposta publicamente, como se eu estivesse
querendo “tirar uma grana, ter 5 minutos de fama” ou pior, como eu já
vi, “dado motivos” para que ele agisse assim.
Acho que ninguém que escreveu estas coisas ou vazou a história me
conhece bem. Mas eu gostaria de dizer que vocês são tão ruins ou piores
que o próprio Airton Cordeiro. Alguns podem achar tudo isso muito
natural, podem achar que é coisa de uma pessoa senil. Mas não, não é.
Isso não é normal. Imaginem se isso acontecesse com sua esposa, sua
filha ou sua mãe e centenas de pessoas ainda julgassem a índole de quem
você quer bem.
Com as coisas em níveis impraticáveis o José Wille levou a
questão para a empresa. Eu não sei detalhes da reunião, a única coisa
que me disseram foi que as gravações com os relatos de assédio foram
mostradas. Com a omissão da chefia, o José Wille pediu demissão. Encarei
meus colegas um a um com um sentimento de culpa. Apesar de não ter
“cavado” a situação eu era a pivô.
As atenções estavam voltadas para a casa. Todos os funcionários
queriam uma reunião, uma palavra dos líderes da empresa. Queriam a
garantia de que apesar da amizade, o diretor-geral não deixaria que o
Airton voltasse, nem em 2 dias nem em 2 anos. Queriam algo por escrito. O
próprio Álvaro chegou a escrever uma nota pública que foi levada até a
direção frisando o fato de que o Airton não voltaria. Mais uma vez eu
não sei os motivos, mas a tal retratação não foi assinada.
A única coisa que eu sabia é que o Marcos Tosi tinha reunido
testemunhos dos assédios que o Airton havia cometido. Inclusive eu mesma
prestei depoimento. Mas, como o próprio Tosi divulgou em sua página no
Facebook, “Infelizmente, como na antiguidade, o mensageiro da má notícia
pagava o preço com a vida”. Até onde sei, documentar estes fatos não
foi nem um pouco bem visto. Tosi sofreu o famoso “gelo” e devido a esta
situação decidiu também sair da rádio.
Foi no dia 5 de agosto. O Tosi anunciou a demissão no começo da
manhã. Em meio ao alvoroço o Álvaro chegou igualmente transtornado. Sem
pronunciamento da direção, com biografias em jogo, o Álvaro não pensou
duas vezes. Saiu pela porta e não voltou mais.
Sou grata à atitude do Wille, mas como eu disse só falei com ele
uma vez. Nunca tive a oportunidade de contar a ele como eu estava me
sentindo ou pensando, então espero que este texto possa suprir esta
falta.
Quanto ao Álvaro e ao Tosi, eu não tenho palavras. Todos na rádio
perderam não só o âncora, o chefe, mas grandes amigos. E digo isso não
porque os dois eram meus amigos fora da rádio ou porque tivemos
convivência fora do ambiente de trabalho (nunca os vi, nem de longe sem
ser dentro da rádio). Digo isso porque foi a sensibilidade do Tosi ao
abordar o assunto, as vezes que acabei chorando e que ele soube escutar
que me fazem o considerar um amigo.
O Álvaro considero igualmente um
amigo por ter segurado a barra na linha de frente. Pelas conversas,
apoio e orientações. Pela sensibilidade em proteger meu “início de
carreira”, minha integridade e meu nome como até hoje o estavam fazendo.
Não estou escrevendo essas coisas para rasgar seda e sim para
colocar os pontos nos “is”. Não tive a oportunidade de falar com todos
os meus colegas sobre isso, então espero que estas palavras cheguem a
todos e esclareçam de fato o que aconteceu.
Com a perda de 3 âncoras e sem uma palavra oficial, os
funcionários da CBN entraram em greve. O holofote estava apontado para a
rádio, notícias em vários jornais, até de circulação nacional. A bomba
explodiu. Veio a nota pública da direção, mas ainda choveram informações
desencontradas.
Espero que esse texto também venha reparar a culpa que sinto por
ter abalado todos os funcionários, sem exceção. Sei, e muitos já me
falaram e deixam todos os dias claro que a culpa não é minha. Mas apesar
de desejar, eu não consigo aquietar meus pensamentos com isso. Eu sei
que esta história não só tirou o trabalho de 3 pessoas e prejudicou suas
famílias, como eu sei também que os outros que ficaram foram igualmente
prejudicados com a alta carga de trabalho, responsabilidade e estresse.
Em poucas horas repórteres tiveram que assumir a produção,
apresentação, chefia e se desdobrar em vários turnos. E o pior, ter de
lidar com a sempre ferrenha crítica dos ouvintes.
Não dá para culpá-los. O ouvinte tão acostumado as vozes
familiares, da noite para o dia foi privado da rotina de escutar o
programa. E com isso também espero me desculpar com todos os 13 ouvintes
que só eu atendi e não pude dizer isto, aos incontáveis que mandaram
email, manifestaram-se pelo Twitter ou pelo Facebook da empresa. Eu sei
que nenhum de vocês precisa pagar por esta história, mas “todos estamos
trabalhando em triplo pra garantir a qualidade na programação”. Não é só
demagogia.
Na segunda não fui trabalhar. Mas terça tomei coragem, lavei o
rosto e encarei meus colegas. Não porque eu sentisse que estava devendo
alguma coisa para a empresa e sim porque eu estava devendo alguma coisa
para os meus colegas que estavam tocando o jornal, acreditem, em 4
pessoas! Uma produtora, um apresentador, uma repórter e um operador de
som. Duas horas e trinta minutos de programa.
Fui e continuo indo trabalhar por esta razão. Sinto que o mínimo
que eu posso fazer é dividir a carga comigo também e ajudar as pessoas
que não podem largar os trabalhos ou que não estavam diretamente
envolvidas no conflito, mas que estão pagando o alto preço.
E, por fim, é hora de tornar público porque é uma tentativa de me
sentir menos humilhada e envergonhada. Está na hora de encarar as
coisas de frente e assumir de uma vez por todas que sim isto aconteceu
comigo. Aconteceu com várias mulheres e passar adiante a lição de que
assédio sexual não é sobre sexo. É sobre poder.
Ainda temo pelas consequências desse episódio. Tenho medo do que
isto pode significar para a minha carreira. Tenho medo de que me
associem a isto por muito tempo não importando o quanto eu me esforce
para fazer com que os méritos sejam maiores do que a polêmica. Tenho
medo de que isto cause mais ira nas pessoas “poderosas” atingidas e de
que isto me prejudique de alguma forma física, jurídica ou profissional.
Tenho medo de como meus amigos e familiares vão reagir.
Mas eu tenho o dever de escrever isso não porque quero ser uma
“bandeira do feminismo”, mas porque não quero que esta história vire
algo do tipo: “isto foi um complô contra mim, ninguém prestou queixa,
não há provas”. Por respeito a todos os meus companheiros de profissão,
da rádio e também os que eu nem conheço. Por respeito, julgo ético não
me calar agora. Estou ouvindo muitos murmúrios, ‘disse que não me
disse’. E sei que eu sou a única pessoa que pode relatar o que aconteceu
verdadeiramente, por que só eu tenho o direito de me expor desta forma,
aguentando as consequências desta exposição.
Chega de boatos, piadas de mau gosto e colunistas defendendo o
Sr. Honra e Moral. Honra, moral, ética e profissionalismo são o que
fazemos no nosso dia a dia. Se hoje eu não durmo bem é por culpa do
sofrimento que isto causou a todos. Mas e o Sr. dorme bem? Põe a cabeça
no travesseiro tranquilo?
Você olha para a sua esposa, 50 anos casado e
não sente nenhuma ponta de remorso? Ou no fundo você acha que essa
canalhice é “um sorriso”? O que você VERDADEIRAMENTE fez é repulsivo e
caso de polícia. Sinto nojo por mim e mais nojo ainda pelas coisas que
você fez com mulheres que não podem e não querem falar, porque tem medo
que isto prejudique profundamente suas vidas, mais do que você já
prejudicou.
Poderia te desejar um processo bem dado, polícia, inquérito e
tudo mais. Mas o que eu posso desejar que fosse pior do que você deve
estar vivendo? Pode ter a certeza de que apesar de achar que a justiça
não será feita por vias legais eu acredito que de alguma forma você vai
pagar por essa canalhice. Pode ser no âmbito criminal, trabalhista,
sindical, ou seja lá o que for. Eu não tenho a defesa de grandes
escritórios de advocacia, não sou ex-deputada federal, mas a verdade e a
vergonha na cara já me bastam.
Se você dorme bem e com a consciência tranquila, muito bom para
você. Mas não existe nada pior para um jornalista do que ter a
credibilidade suja, a honra julgada e a moral extirpada. E aqui vou
parafrasear o Álvaro. “Biografia, a gente só tem uma…” O que vão
escrever na sua?”
Sindicato dos Jornalistas do Paraná
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