Redes sociais desmontam denúncia da Folha sobre o Mais Médicos. Jornal estampou que a médica Junice estaria sendo demitida para dar lugar a “um cubano” mas não mencionou que ela acumula três empregos que totalizam 128 horas semanais de serviço
A análise dos jornais diários é sempre uma caixinha de surpresas
quando se tem tanta informação rolando nas redes sociais. A Folha de
hoje estampa denúncia de que os prefeitos de 11 cidades demitirão
médicos locais para que cheguem os profissionais do Programa Mais
Médicos. A denúncia é grave.
Uma leitura apurada da matéria leva por entendimentos diversos.
Título de capa aponta para a certeza de que haverá demissões “de médicos
locais para receber os de Dilma”, o subtítulo coloca que 11 cidades
“decidem trocar profissionais para ficar com os do programa Mais
Médicos, pagos pela União”. Pois bem. A denúncia chama a atenção. O
texto da chamada afirma que prefeituras do Norte e Nordeste começaram a
trocar médicos contratados pelo Mais Médicos. Ponto. E que prefeitos e
secretários de saúde “dizem que a mudança é vantajosa”, pois os
profissionais são custeados pelo governo federal enquanto os médicos
locais são pagos pelas prefeituras, com salários que chegam a R$ 35 mil.
Outro atrativo é a certeza de que o novo profissional irá trabalhar por
três anos, pelo menos.
A personagem que dá corpo à denúncia, a médica Junice Moreira, diz
que foi comunicada da demissão, afirmando que “disseram que eu tinha que
dar lugar a um cubano”. O prefeito em questão, da cidade de Sapeaçu
(BA), Jonival Lucas (PTB), afirmou que ela está saindo por não cumprir a
carga horária e não por conta da adesão ao programa.
Na reportagem que abre o caderno Cotidiano, a Folha afirma que
identificou 11 cidades de quatro estados diferentes que pretendem fazer
demissões para receber os profissionais do Mais Médicos. Prefeitos
reclamam da alta rotatividade e de altos salários que precisam pagar
para conseguir segurar profissionais. Além disso, aponta para a falta de
infraestrutura como um fator que desanima os médicos locais. O impacto
dos salários em pequenas prefeituras fica evidenciado na matéria.
Na segunda página do mesmo caderno, vem a reportagem-denúncia de que a
médica Junice estaria sendo demitida para dar lugar a “um cubano”. Essa
é a manchete da página, e o subtítulo reafirma o título. Começa com a
triste notícia de que hoje, em Murici, povoado de Sapeaçu, será o último
dia de trabalho da médica mineira, e sua demissão teria sido anunciada
pela Coofsaúde, cooperativa que faz o pagamento dos médicos que ali
trabalham por meio de contrato com a prefeitura. A cooperativa confirmou
a saída da médica e que, em seu lugar, entrará um médico do programa. A
brasileira se disse surpreendida pela notícia “pois não tinha feito
nada errado”. E vai discorrendo sobre o caso, dizendo que é “adorada”
pela população local.
Ouvido, o prefeito afirmou que a demissão não tem nada a ver com o
programa, que já estavam procurando outro profissional para colocar no
lugar da doutora Junice e o problema alegado para que a troca ocorresse
era de que ela não estaria cumprindo a carga horário estabelecida, sendo
que o substituto será um profissional brasileiro que já atuou naquela
região. E sim, ele afirma que o programa traz benefícios aos municípios,
pois desonera a folha de pagamento.
Em texto com uma coluna, a Folha fala dos outros municípios que irão
trocar médicos locais por estrangeiros. Fala de Barbalha, no Ceará, que
substituirá dois contratados por outros do Mais Médicos. De Camaragibe
(CE), a informação de que o município tem direito a quatro médicos pelo
programa, então demitirá dois para receber outros profissionais, e os
dois restantes deixarão de receber pelo município para receber pelo
governo federal. Não deixa claro se esses médicos locais, que receberão
pelo governo, terão salário rebaixado. Isso é uma imposição? O jornal
não explica esse ponto, e fica uma denúncia comprometida, já que o
Programa Mais Médicos tem profissionais inscritos, por interesse
próprio, e somente os que passaram pelo crivo da inscrição poderão ser
indicados aos municípios. Assim fica a pergunta: como os médicos
receberão do governo ,sem participação no programa via inscrição e
escolha de município?
E mais, neste pequeno texto, outra informação importante: a de que,
além da economia, aponta-se a obrigação de cumprir horários como outro
benefício, já que os médicos serão acompanhados pelo governo federal.
E o outro lado, com Padilha afirmando que os quadros das prefeituras
são monitorados para evitar que esse tipo de problema, apontado na
matéria, ocorra. “Esse programa é Mais Médicos, não troca de médicos”,
afirmou o ministro em audiência no dia 14, na Câmara.
Um infográfico, em todo o centro da página, cujo título é
“Substituição de Mão de Obra”, coloca os 11 municípios no mapa. Mas
também traz outras informações: nos quatro estados o número total de
médicos, o número de médicos por mil habitantes e os médicos previstos
na primeira etapa do programa. E mais: traz uma relação médico/mil
habitantes em outros países, o que acaba por endossar a necessidade do
programa para essas regiões.
E as redes sociais com isso?
Nem bem a Folha trazia sua manchete com a denúncia, começou a
circular no Facebook a denúncia de que a denúncia do jornal seria vazia.
Segundo Vania Grossi, usuária da rede social, a Dra Junice teria três
empregos, o que daria uma jornada semanal de 128 horas. A usuária
afirma, também, que esse tipo de problema, de médico burlar o
atendimento com vários empregos concomitantes, está acontecendo em sua
cidade, e que eles estão sendo acionados para devolver o dinheiro
recebido ao município.
As redes sociais dirão se a Folha tem ou não razão. Basta dar um
tempinho para que as denúncias sobre essa denúncia sejam confirmadas ou
refutadas. Em tempos de facilidade de informação, a Folha
deveria ter se escudado com o contracheque da denunciante, para não dar
espaço ao clamor das redes sociais.
Acompanhemos, pois!
Veja a denúncia da usuária do Facebook abaixo.
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(Imagem – CNESNet – Ministério da Saúde) |
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(Imagem – CNESNet – Ministério da Saúde. Com imagem de arquivo pessoal da Dra. Junice – Reprodução/Facebook) |
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