Finalmente apareceu alguém sem
medo de confrontar a presidente da República - o diplomata Eduardo
Saboia, cérebro da operação que resultou na retirada da Bolívia do
senador Roger Pinto Molina, refugiado em nossa embaixada de La Paz há
mais de 450 dias.
O Brasil acatara o pedido de
asilo político dele, que denunciara autoridades do seu país por
envolvimento com narcotráfico. A Bolívia negara o salvo-conduto para que
Roger deixasse o país em segurança sob a acusação de que é corrupto.
Saboia disse que Roger não
podia receber visitas. Nem circular dentro do prédio da embaixada. Nem
se comunicar com a família. Nem tomar banho de sol. Uma autoridade do
governo boliviano comentou certa vez que ele ficaria ali até morrer.
- Você imagina ir todo dia
para o seu trabalho e ter uma pessoa trancada num quartinho do lado, que
não sai? Aí vem o advogado e diz que você será responsável se ele se
matar. Eu me sentia como se fosse o carcereiro dele, como se eu
estivesse no DOI-Codi.
Presidente da República não
bate-boca com funcionário de escalão inferior. Dilma bateu ao dizer ter
provado da desumanidade dos DOI-CODIs. E que a distância que os separava
das condições de vida na embaixada de La Paz equivalia à distância
entre céu e inferno.
O dia sequer terminara e
Saboia já replicava Dilma. "Eu que estava lá, eu que posso dizer. O
carcereiro era eu. Ninguém mais viu aquela situação", respondeu.
Desautorizou a presidente, portanto. E sugeriu que ela nada poderia
falar a respeito porque simplesmente não estava lá.
Nenhum ministro, senador,
deputado ou presidente de um dos poderes da República foi tão longe em
relação a Dilma quanto Saboia, um mero encarregado de negócios que
respondia por uma embaixada de segunda classe na ausência do embaixador.
Mas, de duas, uma. Dilma e o
bando de assessores que a cercam não prestaram atenção no que afirmou
Saboia. Ou prestaram, mas a presidente quis bancar a esperta e mudar o
foco da discussão sobre o traslado do senador. Até este momento, a
discussão é favorável a Saboia.
Recapitulemos. Disse Saboia:
“Eu me sentia como se fosse o carcereiro dele, como se eu estivesse no
DOI-Codi”. Era Saboia, bancando o carcereiro, quem se sentia como se
estivesse no DOI-CODI. Não disse que o senador enfrentava condições
semelhantes às dos DOI-CODIs.
As palavras ditas por Dilma:
“Eu estive no DOI-Codi, eu sei o que é o DOI-Codi. E asseguro a vocês
que é tão distante o DOI-Codi da embaixada brasileira lá em La Paz
(Bolívia) como é distante o céu do inferno”.
Em resumo: Saboia disse uma coisa. Dilma, outra.
No
último sábado, ao ficar sabendo que Roger chegara a Corumbá depois de
rodar mais de mil e quinhentos quilômetros dentro de um carro da
embaixada acompanhado por Saboia e dois fuzileiros navais, Dilma só
faltou escalar as paredes do Palácio da Alvorada.
Cobrou a demissão imediata de
Saboia ao ministro Antonio Patriota, das Relações Exteriores. Patriota
estava em São Paulo pronto para viajar à Finlândia. Dilma foi grosseira
com ele, como de hábito. Mandou que retornasse a Brasília. E o demitiu
em seguida.
A indignação de Dilma tem a
ver com duas coisas. A primeira: ela ficou mal diante do presidente Evo
Morales. Que acusou o Brasil de desrespeitar tratados internacionais ao
providenciar a fuga de Roger sem que ele tivesse obtido antes um
salvo-conduto.
A segunda coisa: Dilma tem
medo de que reste provada a negligência do governo brasileiro no caso do
senador boliviano. Saboia tem como provar a negligência. E para evitar
que o governo tente por um fim em sua carreira diplomática de mais de 20
anos, está disposto a provar.
- Eu perguntava da comissão
bilateral para resolver a questão do senador, e as pessoas me diziam:
"Olha, aqui [no Brasil] é empurrar com a barriga.". Tenho e-mails
dizendo: "A gente sabe que é um faz de conta, eles fingem que estão
negociando e a gente finge que acredita".
Tem um filme na praça chamado
“Hannah Arendt”. Conta a história do julgamento em Jerusalém do carrasco
nazista Adolf Eichmann. E da cobertura do julgamento feita para a
revista americana The New Yorker pela filósofa judia de origem alemã
Hannah Arendt.
A teoria da “banalidade do
mal” começou a nascer ali quando Hannah se convenceu de que Eichmann, de
fato, não se sentia responsável pela morte de milhões de judeus. Ele
não se cansou de repetir em sua defesa: apenas cumprira ordens.
Ninguém ordenou que Saboia
tentasse salvar a vida do senador boliviano que ameaçava se matar,
segundo atestados médicos. Mas sentindo-se responsável por ele, Saboia
decidiu em certo momento obedecer ao que mandava a sua própria
consciência.
Alguns dias antes de fazê-lo,
despachou para o Itamaraty uma mensagem antecipando o que iria se
passar. A resposta foi o silêncio. Quem por aqui se lixava para a sorte
do senador boliviano? Quem em La Paz se lixava?
Por negligência, omissão e
desumanidade, Saboia não poderá ser punido. Não deverá ser punido. Não
merece ser punido. Por tais crimes são outros que deveriam sentar no
banco dos réus.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.